
Brasília, 14 de julho de 2026
Pela primeira vez em suas 81 edições, a Semana Oficial da Engenharia e Agronomia (Soea) vai contar com uma parceria formal entre o Confea e o poder público municipal para o enfrentamento ao assédio e à violência durante o evento. Em outubro, quando a Soea acontece em Aracaju, a Secretaria Municipal do Respeito às Políticas para as Mulheres (SerMulher) vai proporcionar o trabalho de acolhimento a participantes que passarem por situações de assédio ou episódios de ansiedade nos três dias de programação.
Mudança de rota
Até então, o acolhimento no evento era feito pelo "Conta Comigo", serviço contratado pela Mútua, caixa de assistência dos profissionais do Sistema Confea/Crea. A ideia de buscar uma parceria com o Estado partiu da conselheira federal Giucélia Figueiredo, que via na aproximação com uma rede pública de proteção social um passo necessário diante do crescimento do evento e dos episódios registrados nas últimas edições.

"A parceria com a Secretaria Municipal do Respeito às Políticas para as Mulheres de Aracaju representa um avanço do nosso sistema profissional na integração com a rede de proteção social às mulheres, na prevenção e combate à violência no âmbito da Soea", afirma a conselheira. Para ela, a colaboração viabiliza "acolhimento humanizado às mulheres e meninas que venham a sofrer qualquer tipo de violência", com identificação e encaminhamento adequado dos casos.
A busca por apoio federal já havia sido tentada antes, sem sucesso, conforme relata a assessora técnica da Comissão Organizadora da Soea, Silvia Nunes Girardi, estruturas nesse nível tendem a esbarrar em entraves operacionais que dificultam uma atuação de ponta durante o evento. A adesão de uma secretaria municipal recém-criada, ainda pouco conhecida fora de Aracaju, surpreendeu a organização pela disposição em participar e em aprender com a experiência.
Silvia explica que a decisão de ampliar o serviço de acolhimento reflete o próprio crescimento da Soea nos últimos anos. Desde que o Confea passou a registrar formalmente as ocorrências, em 2024, o número de casos aumentou de uma edição para a outra. Para Silvia, iniciativas de conscientização têm efeito direto sobre esse tipo de comportamento. "Quanto mais ações de educação a gente faz, menos ocorrências a gente tem. Se as pessoas souberem que existe esse serviço, vão pensar duas vezes antes de fazer uma cantada ou criar uma confusão", avalia.

Como vai funcionar o acolhimento
Durante os três dias de programação — 14, 15 e 16 de outubro, das 8h30 às 18h30 —, a SerMulher vai disponibilizar uma equipe multidisciplinar composta por psicóloga, assistente social e orientadora jurídica, além de uma equipe de busca ativa responsável pela distribuição de material informativo sobre campanhas como o "Não é Não" e sobre o canal da ouvidoria municipal. O grupo vai ocupar uma sala exclusiva reservada para o acolhimento ao longo de toda a programação.
A organização também estuda disponibilizar um canal de contato direto por QR Code, possivelmente vinculado a WhatsApp, para que qualquer participante possa acionar o serviço sem precisar se deslocar até a sala de atendimento. Segundo a secretária municipal Elaine Cristina da Silva Oliveira, o formato é rotina na atuação da SerMulher fora do evento. "Já é utilizado em todas as nossas ações. A gente acredita nessa facilidade para que as pessoas consigam conversar naquele momento, ali, ou através do nosso Instagram ou da nossa ouvidoria, para que essa mulher possa buscar informação, orientação e se sinta segura para romper o ciclo da violência", explica.

O protocolo prevê ainda a possibilidade de registro de boletim de ocorrência no próprio local, com encaminhamento posterior ao Centro de Referência de Atendimento à Mulher (CRAM), onde o acompanhamento pode se estender por meses, de forma individual ou em grupo. "A gente consegue, no próprio ambiente, buscar medida protetiva e fazer o boletim de ocorrência. Primeiro trazemos essa mulher para o acolhimento, para que ela entenda que está, naquele momento, rompendo o ciclo da violência", diz Elaine.

Público majoritariamente masculino
O evento reúne profissionais de engenharia, agronomia e geociências, setor em que cerca de 80% do público costuma ser formado por homens. Para a secretária municipal, esse cenário reforça - em vez de restringir - a relevância da presença da SerMulher. "Quando a gente fala do enfrentamento à violência, a gente também precisa trazer os homens para o centro. Se eles fazem parte do problema, precisam fazer parte da solução", afirma. Segundo ela, o padrão mais recorrente identificado pela secretaria em eventos de grande público é o de importunação sexual, o que reforça a necessidade de uma equipe visível e acessível ao longo de toda a programação.
Antes da abertura oficial, a SerMulher também vai conduzir uma conversa de sensibilização com recepcionistas e profissionais terceirizados — prática que, segundo Elaine, já integra o protocolo adotado pela Secretaria na maioria dos eventos de que participa em Aracaju.

Um case para os dois lados
Para Silvia, a parceria tem potencial de se tornar referência para eventos futuros do Sistema Confea/Crea, ao mesmo tempo em que amplia a visibilidade de uma Secretaria ainda em consolidação. A leitura é compartilhada por Elaine, que vê na presença em espaços tradicionalmente masculinos uma forma de ampliar o alcance da política pública. "Não é porque é um ambiente majoritariamente masculino que a gente não consiga, ali, extrair uma política pública. A gente vê como um momento de informação, para que essas pessoas possam replicar a questão da não violência, do respeito acima de tudo, para nós, mulheres", diz.
Para a secretária municipal, o indicador de sucesso da ação não estará no número de atendimentos realizados durante os três dias de evento, mas na confiança que o serviço passa a inspirar. "A gente mede muito mais pela confiança no serviço do que pelo volume de atendimentos. Depois, a gente observa isso nos comentários da rede social e até na divulgação boca a boca", afirma.
A ação integra ainda um conjunto de materiais de divulgação produzidos para a 81ª Soea, entre eles adesivos para banheiros e áreas de circulação, bottons com mensagens de combate ao assédio e a exibição de um vídeo institucional da SerMulher nas palestras magnas e nas cerimônias de abertura e encerramento do evento.
Beatriz Leal Craveiro
Equipe de Comunicação do Confea
Fotos de diversos arquivos
